sábado, 2 de junho de 2018

Voar contigo






Voava contigo até aos campos floridos e rebolava até à água fresca do rio

Seríamos como crianças alegres, felizes, espalhando borboletas no céu

Baloiçando naquela árvore eterna, beijando-te mais do que nunca

E tu pegavas-me pela cintura e fazias de mim um pássaro azul

Uma festa com balões e música, uma praia com laranjeiras

Dávamos as mãos, dávamo-nos um ao outro no chão

Já estaríamos ali sem estar, porque uma doce luz

Faria os nossos corações transformarem-se

Em extraordinário brilho de supernovas

E uma estranha paz, jamais vivida

Inundaria todo o universo

Revelado na poesia

Do nosso olhar

Infinito,

Puro


quinta-feira, 29 de março de 2018

Ser amada



Querida e linda Inês:

Encontrei um lamento teu, perdido a voar pelo céu, esquecido no tempo, e fiquei perplexa perante as tuas palavras. Já os teus olhos sem brilho e o teu sorriso quase choro me falavam desta dor e de todas as que voltaram. Disseste tu, não sei a quem… talvez a ti própria e a mais ninguém:

“Ai, se me desses longos beijos com a boca doce e a língua a saborear-me.  Queria beijos desses em toda a pele, sobretudo nos seios, para sentir a tua sede de mim…

Ai, se as tuas mãos me percorressem lentamente, se entrasses em mim e me transformasses por inteiro, fazendo-me tua. Queria tanto ser tua…

Ai, se o teu olhar me despisse e voasse pelo meu ser devagarinho, ouvindo a paz do silêncio, a alegria do meu sorriso. Queria ver um pássaro azul no teu olhar…

Ai, se dançasses comigo as músicas mais lindas como se fizéssemos amor ao ritmo da nossa respiração. Queria tanto enlear-me em ti…

Ai, se me falasses vendo o ser especial que eu sou e não o teu passado. Queria tanto que soubesses ver a diferença, o quanto sou genuína…

Ai, se te abrisses a mim e eu pudesse correr para ti e lançar-me no teu peito, doida de amor por ti. Queria tanto abraçar-te assim…

Ai, se eu pudesse surpreender-te com carícias mil, com a alegria das coisas simples e belas. Queria tanto deliciar-te…

Mas a minha vida não passa de uma repetição, onde os meus desejos são lançados contra mim, como pedras, agulhas, falhas. A mim é-me sempre exigido que aceite um amor, ora sem corpo, ora sem expressão clara de um compromisso comigo para a vida.

Sinto-me em prova constante como se tivesse de prescindir de tudo. Sinto-me ignorada, envergonhada por deixar que me “ames” e não saibas ver o que realmente sou e me confundas com outra qualquer.

E nem sequer está em causa a minha capacidade de te amar, porque é impossível eu não te querer bem. Não preciso que sejas perfeito, porque o meu amor não tem condição. Eu amo o mais que sou capaz de amar sem limite.

Mas começo a querer muito, muito que a nossa vida seja tão diferente do que é, que já nem sei que sentido tem vivê-la assim…

Eu sei que sou exigente, mas acho uma falta de consideração por mim alguém pensar que menos do que a verdade, menos do que querer-me toda, menos do que fazer das tarefas diárias comuns um ponto de encontro, menos do que optar por nós como condição essencial para a nossa união, me satisfaz.

Não vale a pena, pois, falar-te sobre as minhas necessidades, porque nada muda, porque a tua forma de amar ignora o meu corpo e assim para ti não sou mulher, mas um ser bondoso, um anjo.

Não vale a pena ter todos os dias, todas as horas, sempre, a maldita esperança de que o nosso encontro possa acontecer. É como se seguíssemos caminhos suspensos, sem chão. Falta deitarmo-nos na terra, na areia, na caruma…

Não vale a pena pensar que o teu ser espantosamente lindo é essencial para me fazer feliz. Eu sou feliz pelo que sou, mas falta-me sê-lo pelo que receberia de ti e pelo que te daria.”

Minha flor:

Precisas de tempo. Vai até à praia das laranjeiras naquela lambreta, que um dia passou à tua porta, para sentires o que permanece dentro do movimento: as marés, o vento, os cheiros, o calor. Saboreia a vida nesse embalar e aceita que é tua condição buscares (mesmo que tenhas intenção de evitar) essa e outras repetições. Mas, se já te sentes afogada nelas, então cabe-te a ti identificar como se gerou esse ciclo e determinar o que há realmente a fazer ou a evitar para te salvares de ti.

Precisas de luz, essa força que tens em ti por seres de Deus. Vê em cada dificuldade um caminho para a sabedoria do que é amar incondicionalmente. Aprenderás assim a magia, o milagre de construir o amor com a doçura, a entrega, a coragem de crescer com o outro.

Precisas de dançar. Baila de alegria, volteia em êxtase, rompe o céu com um grito teu e adormece. Dorme no meu colo e sonha as coisas mais belas. As tuas células renascerão com um fogo de vida capaz de te renovar.

Precisas de escrever. Não para mudar ninguém, nem para acusar, mas para te revelares no mais íntimo de ti. Não cales a tua dor, pois sabes o quanto ela se entranha no teu corpo. Assim, tocarás a sensibilidade de quem realmente te ama, partilhando as tuas perspetivas. Mas, se o teu amado te calar com as suas condições, os seus medos, as frustrações do seu passado, se ele não souber entregar-se a ti, se ele te manipula, transformando os seus atos de amor em sacrifícios e/ou em escolhas que o vitimizam, então questiona a tua opção.

Precisas de acordar. Não te deixes afogar pela esperança. Ela exige paciência, mas não é uma espera eterna. Portanto, age: ama mais, ama diferente, ama como nunca amaste. Cuida de todo o teu ser como o fazes relativamente aos outros, para que mais confiante, mais linda, mais apaixonada saibas voar.

Sei que és capaz de coisas maravilhosas!

A tua sempre amiga,

Flor


terça-feira, 22 de agosto de 2017

Dançar





É uma brincadeira de dedos no ar, na pele, um divertimento de pura alegria
É uma graça com sorrisos transbordantes e contagiosos de magia

É rodopiar, rastejar, viajar no espaço, correr e saltar com forças desconhecidas
É enamorar-me da chuva e bebê-la num banho de carícias envolvidas

É criar uma possibilidade infinita de movimentos, de ser, sem qualquer limite,
É voar perscrutando o cheiro das folhas, dos frutos, o sabor da vida como um convite

É tocar as estrelas, é descer ao mais fundo do meu ser, entrar fascinada no teu olhar,
É abraçar e sentir-me encontrada, ser numa roda festejada e festejar

É poder abandonar-me no teu colo, é cair no vazio, nos medos sem medo algum,
É sentir o conforto duma presença que me ampara, mas não asfixia de modo nenhum

É sair de mim um grito visceral, ver a dor nas minhas entranhas e libertar-me,
É saber contornar as pedras, enfrentar as bestas, afirmar o centro e soltar-me

É poder brilhar, é ser semente, é plantar jardins, é ser bicho e caçar,
É ser pássaro e anjo e chegar tão próximo de Deus que O sinto em mim a amar

É ficar linda, poderosa, transformada, ser mais eu equilibrada e feliz
É sonhar com as minhas células e ter força para realizar o que desejei e nunca fiz