Alain de Botton é um
ensaísta suíço, filho de ateus militantes, que no seu livro Religião para Ateus – Um guia para não
crentes sobre a utilização da religião, nos revela o seu olhar sobre as religiões procurando perscrutar
nelas o que há de útil, que possa ser aplicado no reino secular. Um dos temas
por ele abordado nessa fascinante obra é a educação. E como eu comungo com ele
a ideia de que devemos saber aprender com as leituras que fazemos para tentar
mitigar alguns males presentes no processo educativo, decidi fazer um resumo, entrecortado
com pequenos apontamentos pessoais (a azul) para divulgar a sua tese.
A educação é a forma mais
eficaz para promover o desenvolvimento da sociedade, numa perspetiva mais
fraterna e humanista. Segundo Matthew Arnold, uma educação cultural deveria
inspirar-nos a amar os outros, para que ficassem melhor e mais felizes do que
quando os encontrámos, objetivo este que conjuga na perfeição com o que Stuart
Mill estabelece para as universidades: criar
seres humanos capazes e cultos e não meramente advogados, médicos,
engenheiros…
No entanto, torna-se muito
difícil descortinar nos conteúdos dos cursos académicos quaisquer competências
emocionais ou éticas, restringindo a sua missão ao ensinar-nos a ganhar a vida em detrimento do saber viver.
Com a diminuição da crença
religiosa na europa, sobretudo a partir do séc. XIX, a cultura secular ocupou
progressivamente o lugar até então atribuído às escrituras, acreditando-se que
passaria a cumprir o papel de orientação anteriormente atribuindo à religião. Os
romances propiciariam a edificação moral, a pintura aludiria à essência da
nossa felicidade, a filosofia abordaria os problemas da ansiedade e da solidão,
a literatura mudaria as nossas vidas.
Então, porque é que
efetivamente isso não aconteceu? Não terá sido decerto pela falta de material
adequado, mas sim pela forma como o tratámos, isto é, por não o termos
considerado como fonte de orientação para as nossas vidas. Sendo assim, que
razões encontramos para estudar? Recordo um exame oral em que apresentei as minhas dúvidas sobre que
relação teria comigo o mito da caverna, pois mais do que um conhecimento acerca
de uma história antiga eu queria perscrutar nela uma atualidade, um saber para
a minha vida.
Uma cultura relevante e
útil, que forneça parâmetros seguros e rigorosos para as escolhas
profissionais, os relacionamentos interpessoais, as adversidades não é
contemplada pelos departamentos académicos, estando subjacente a independência
e maturidade de todos os estudantes.
Ora é exatamente essa a área
na qual a máquina pedagógica cristã intervém, pressupondo que cada indivíduo é
frágil, vulnerável, pecador, apresentando-lhe os ensinamentos religiosos como
estimulantes, tranquilizadores, consoladores e orientadores para a sua alma.
Enquanto na educação secular
se fazem palestras para transmitir informações, na cristã proferem-se sermões
para mudar as nossas vidas. E se, no quadro da primeira, raramente colocamos
questões verdadeiramente relevantes e diretas aos textos que lemos, por
sentirmos embaraço em admitir quais as nossas necessidades interiores, já as parábolas
estão na base da abordagem dos textos religiosos pelo seu caráter utilitarista,
didático e simples, fatores que, por sua vez, favorecem a resistência secular
pela sua proximidade à natureza infantil.
No entanto, são exatamente
as estruturas elementares da primeira infância que devem ser reconhecidas como
parte importante de nós e tomadas em consideração na forma como o conhecimento
nos é transmitido. Isto implica saber que deverá ser dado de forma lenta e
cuidadosa, tal como um alimento cortado em partes comestíveis.
Se a clareza e a
simplicidade pautassem o ensino secular, contemplando o auxílio e a
transformação como motores do desenvolvimento pessoal e interpessoal
contemplando os nossos dilemas pessoais e éticos. Entre outros tópicos, poderíamos
estudar formas de saber reconsiderar o trabalho, melhorar as relações com as
crianças, aproximar-nos da natureza, como enfrentar a doença.
Mas mais do que uma
adaptação a nível do conteúdo, a educação secular teria muito a beneficiar com
uma reforma dos seus métodos. Raramente, se incide no
ponto fundamental, que é, não tanto o de combater a ignorância, mas o de lutar
contra a nossa relutância em agir de acordo com as nossas ideias. Para tal, já
os sofistas gregos insistiam na necessidade de todas as lições apelarem à razão (logos) e à emoção (pathos). De igual modo, Cícero defendia as capacidades de
provar, encantar e persuadir, as quais foram profundamente desconsideradas pela
universidade, mais preocupada com as ideias em si.
No entanto, se olharmos para a forma como os sermões são feitos
atualmente na igreja católica, verificamos que se despiram de toda a técnica
oratória, parecendo servir sobretudo para induzir o sono de velhos e o
aborrecimento dos raros novos. O exemplo de S. António, os aforismos,
as oposições binárias e a sensibilidade lírica e o à-vontade de John Done,
assim como a técnica de pergunta-resposta dos pregadores afro-americanos
pentescostais e batistas põem em causa o formalismo que mina as práticas
católicas e as académicas.
Para além da forma como são
transmitidas, importa notar que as
ideias devem ser repetidas. Estratégia esta que é rejeitada pela sociedade
secular, que associa a repetição à escassez, defendendo em seu lugar a
descoberta espontânea das ideias. Tal convicção condu-la a apresentar-nos um
fluxo incessante de novas informações, que poderemos descobrir fascinados, mas
esquecemos facilmente.
 |
| Metropolis |
Vemos filmes, lemos livros
tão impressionantes, a partir dos quais pretendemos reconsiderar toda a nossa
existência. Mas, basta um dia de reuniões e problemas para essa atitude ficar
quase obliterada. “Honramos o poder da cultura mas raramente admitimos a
facilidade escandalosa com que esquecemos os seus monumentos individuais” (Botton,
p.133).
Uma única leitura linear
e/ou eventualmente o sublinhar de algumas frases mais sugestivas não são
suficientes para que os livros tenham influência genuína na nossa vida, razão
pela qual se torna imprescindível revisitá-los com frequência, para que assim
se evite o seu esquecimento.
A este respeito temos o excelente exemplo das crianças que pedem para
ouvir as mesmas histórias vezes sem conta, ou visionam incansavelmente os mesmos
desenhos animados, pois sentem ser essencial a repetição para captarem e
assimilarem toda a informação. E todos nós sabemos como ficamos surpreendidos
ao descobrir algo de novo no que já víramos amiúde. Do mesmo modo, os
cientistas, os desportistas assim como os artistas sabem que o seu sucesso
depende da forma insistente como aprofundam o seu conhecimento e a sua arte.
Por isso, lamento tanto que no plano pedagógico, a escola tenha sido invadida
pela ideia de que a repetição anula a criatividade como se fosse possível criar
sem conhecimento prévio e fundamentado de algo.
Não repetem os seres humanos, há milhares de anos, gestos ancestrais
que contêm em si uma cultura que importa conservar? Os judeus,
por exemplo, conservam o ritual da leitura em voz alta, uma tradição com origem
no cativeiro na Babilónia (537 a. C.).
Mas fora da esfera
religiosa, vivemos absorvidos pelas duas forças motrizes da história moderna: a
política e a tecnologia, as quais nos alimentam os desejos de novidade. Sem
notarmos, estamos a pagar um preço demasiado alto por essa relação promíscua,
ao perdermos diariamente a oportunidade de lembrarmos a nós próprios verdades
mais serenas, que deveríamos por em prática.
Não
é por nos inundarmos em informação que desenvolvemos a nossa sensibilidade ou
inteligência, mas por aprofundar e refrescar a sua compreensão. Neste contexto, as crianças e os
jovens são também arrastados como cobaias para experienciar programas e mais
programas plenos de pseudo-novidades, com as mais variadas disciplinas, mas
onde falta a principal: a do TEMPO, do tempo de reviver as vezes que forem
necessárias até se estar preparado para uma nova etapa. O problema do
ensino reside no modo de absorção e não na dimensão do conhecimento.
Acresce ainda que poderemos
retirar das religiões bons exemplos de exercícios espiritais, que nos façam
retirar a educação das salas de aula e combiná-la com outras atividades,
encorajando-nos a aprender por meio de
todos os sentidos, isto é, fazendo: comendo bebendo, tomando banho,
caminhando e cantando.
A cerimónia do chá, no
budismo zen, tem em cada aspeto
ritual um significado, sendo considerada um dos momentos pedagógicos mais
importantes, não para nos ensinar uma nova filosofia, mas sim para tornar a
existente ainda mais clara. Do mesmo modo, encontramos nos banhos judaicos (mikvot) um acréscimo de profundidade à
ideia de renovação naturalmente atribuída. Estas e outras atividades físicas
religiosas estão revestidas de simbolismo e visam apoiar lições espirituais.
Este treino ritualizado não
visa retirar-nos a liberdade, mas reforçar
as nossas capacidades emocionais e morais. Treinando a mente e o corpo e
treinando aquela através deste as religiões propõem-nos retiros espirituais que
nos permitem encontrar equilíbrio
interior. Tal não encontra paralelo no mundo secular, onde spas e hotéis rurais nos mostram pessoas
com roupões luxuosos e 24h de serviço de quartos, pois visam apenas a
satisfação física e a diversão mental, deixando de parte as necessidades
espirituais.
Precisamos, pois, de empregar
todos os recursos possíveis para operar esta mudança, reconhecendo que somos
criaturas cognitivas e sensoriais.
Desconheço se Botton terá alguma vez experienciado aulas de Biodanza,
pois pela sua dupla incidência nas áreas emocional e física, creio que
reconheceria nesta “dança da vida” as potencialidades para o desenvolvimento do
equilíbrio espiritual imprescindível ao ser humano.
Reflexão-resumo feita a
partir de: Botton, Alain de (2012). “Educação” in Religião para Ateus – Um guia para não crentes sobre a utilização da
religião, Ed. D. Quixote.