sexta-feira, 17 de julho de 2015

Ser feliz





Rafael Santandreu mostra-nos de forma clara, nesta entrevista, a sua perspetiva sobre a felicidade.

Começa por revelar que a chave da felicidade é abandonarmos os queixumes para passarmos a adotar uma atitude mais construtiva, procurando aproveitar as oportunidades. E são inúmeras as situações do dia a dia em que habitualmente nos lamentamos.

Considera que assumir a frustração é uma coisa má. Há que saber olhar para os pequenos incómodos com outro olhar. Importa desconstruir o já instalado diálogo interno terribilizador, tendo como recurso precioso a argumentação sobre si próprio.

Está subjacente a esta nova atitude a recusa do endeusamento da comodidade, pois um pouco dela é saudável, mas muita provoca problemas mentais, porque tudo se torna penoso, doloroso, triste.

Propõe, neste quadro, que se procure ter uma mente de preferências, em vez de uma de exigências. Quem tem a primeira diz. “Sou um desgraçado, a minha vida é uma miséria…”e quem tem a segunda diz: “gostaria de ser, vou tentar…”

É que a força do desfrute é mais forte que a força da obrigação, pois esta é muito desgastante e pouco construtiva. Para sabermos desfrutar, devemos usar os “óculos” da felicidade, durante uma hora a hora e meia por dia, no sentido de nos habituarmos a não exigir, a não nos queixarmos, a valorizar o que temos. A depressão produz-se por desamor, por não usarmos estes “óculos.”

A sociedade consumista introduziu uma velocidade exagerada na vida quotidiana, gerando situações de estresse permanente. Há que fazer um esforço consciente para reduzir esta velocidade, questionando as exigências que a própria nos impõe, para além das nossas.

Rafael considera que ter comida e bebida são condições suficientes para deixar de fazer dramatismos, mas não defende o conformismo.

Este psicólogo põe também em causa o conceito de que a nossa felicidade esteja na ajuda aos outros, pois defende que esse objetivo deve estar na cabeça de cada um e é da sua responsabilidade. Afirma que a felicidade é da responsabilidade de cada um, porque é individualmente que se há de aprender a resolver os problemas e a felicidade não vem dos outros.

Preconiza que o importante é sabermos cuidar-nos, praticando desporto, estudando, tendo amigos, para estarmos bem para partilharmos a nossa alegria com os outros.

Mas, eu questiono este último ponto, pois vejo a noção de felicidade muito colada ao individualismo.

Uma mãe é mais feliz se passar fome for necessário para nutrir o seu filho, eu sou mais feliz se der um rim a um amigo para evitar a sua morte.

Há que considerar uma perspetiva mais émica, mais cristã, nesta visão de Rafael, alterando a graduação dos “óculos” da felicidade. É necessário acrescentar o prazer de não nos centrarmos na nossa concha de felicidade individual, pois nós somos seres em relação, múltiplos, nascidos e construídos na relação com os outros.

A sede dos meus amigos é a minha sede, o seu medo é meu, a sua dor é igualmente minha. E é no sentido em que eu contribuo para que este ser coletivo se anime que eu sou feliz.

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