sexta-feira, 8 de março de 2013

Amar o inimigo


O que é amar o inimigo?

“43. Tendes ouvido o que foi dito: Amarás o teu próximo e poderás odiar teu inimigo. 44. Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos [maltratam e] perseguem. 45. Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos. 48. Portanto, sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito.”
http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/sao-mateus/5/#ixzz2MwjWytl8
Então, o inimigo pode castrar-me, violar-me, pode paulatina e sub-repticiamente anular os meus projetos ou os de outro qualquer e eu devo amá-lo?!Como?
“27. Digo-vos a vós que me ouvis: amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam. 31. O que quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles. 32. Se amais os que vos amam, que recompensa mereceis? Também os pecadores amam aqueles que os amam. 33. E se fazeis bem aos que vos fazem bem, que recompensa mereceis? Pois o mesmo fazem também os pecadores. 34. Se emprestais àqueles de quem esperais receber, que recompensa mereceis? Também os pecadores emprestam aos pecadores, para receberem outro tanto. 35. Pelo contrário, amai os vossos inimigos, fazei bem e emprestai, sem daí esperar nada. E grande será a vossa recompensa e sereis filhos do Altíssimo, porque ele é bom para com os ingratos e maus. 36. Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso. 37. Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados; 38. Dai, e dar-se-vos-á. Colocar-vos-ão no regaço medida boa, cheia, recalcada e transbordante, porque, com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos vós também.”
http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/sao-lucas/6/#ixzz2MwifSTlo
 
Conseguirei amá-lo:
- Rezando por todos.
- Dando sem esperar recompensa, sendo misericordiosa.
- Sendo para os outros como quero que sejam para mim.
- Percebendo que o amor incondicional não se circunscreve aos filhos ou à família. Fazendo transbordar a toda a humanidade o ágape, aprendendo a sentir em cada ser humano um irmão.
- Não julgando, pois a justiça divina compreende os inimigos. Sabendo perdoar, reconhecendo que o meu afastamento e/ou desprezo pelo inimigo não pode de forma alguma ser confundido com tolerância.
- Dando a minha vida por ele, querendo ser "perfeita".

Continua em: "Dar a vida".

Dar a vida


Como é que eu dou a vida?

“28. Abençoai os que vos maldizem e orai pelos que vos injuriam. 29. Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra. E ao que te tirar a capa, não impeças de levar também a túnica. 30. Dá a todo o que te pedir; e ao que tomar o que é teu, não lho reclames.”
http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/sao-lucas/6/#ixzz2MwifSTlo
Terei que ser o cúmulo da passividade, permitindo as injúrias e os roubos?

Talvez seja preciso eu olhar a situação, não na perspetiva da valorização do que me foi dito ou retirado, mas sim dos efeitos a que a minha reação de preservação do corpo e dos bens possa conduzir. Deste modo, não estaria a ser defendida a ação invasora do inimigo, mas uma forma de evitar a guerra, deixando-o roubar tudo (até a vida!), uma vez que “o que tem mais valor” ele não consegue tirar-nos: o ágape.
A Expulsão dos Vendilhões do Templo, 
 El Greco, c. 1600 (pormenor)
No entanto, Jesus não permitiu que vandalizassem o templo, e até recorreu a métodos muito pouco passivos:

“14. Encontrou no templo os negociantes de bois, ovelhas e pombas, e mesas dos trocadores de moedas. 15. Fez ele um chicote de cordas, expulsou todos do templo, como também as ovelhas e os bois, espalhou pelo chão o dinheiro dos trocadores e derrubou as mesas. 16. Disse aos que vendiam as pombas: Tirai isto daqui e não façais da casa de meu Pai uma casa de negociantes.”  
http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/sao-joao/2/#ixzz2MxFOXYTB
Jesus, porque é Deus, sabe onde está o pecado e age por forma a corrigir a situação. Nós não teremos assim tanta clarividência, mas, mesmo assim, somos chamados por Ele a corrigir o nosso inimigo:

“15. Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão. 16. Se não te escutar, toma contigo uma ou duas pessoas, a fim de que toda a questão se resolva pela decisão de duas ou três testemunhas. 17. Se recusa ouvi-los, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano.” 
http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/sao-mateus/18/#ixzz2MxdZdDID
"O conformismo é carcereiro da liberdade e inimigo do crescimento."
John F. Kennedy, discurso na ONU (1961). http://pt.wikiquote.org/wiki/Inimigo

Contudo, deste modo, ficamos perante um paradoxo - pois é impossível dar a outra face e simultaneamente repreender ou chamar uma testemunha.

O que fazer?

Como sabemos, a linguagem escrita não traduz a realidade, é tão-somente um recurso humano aproximado para apoiar a comunicação. Parece-me assim, que os “exageros” decorrentes de uma leitura literal, que põe na boca de Jesus um incentivo à passividade, possam ser interpretados como um recurso estilístico conducente à evidenciação da ideia de que a capacidade de se dar, de partilhar deve ser em relação a tudo (veja-se a passagem bíblica do pai que é chamado a entregar o seu filho), pois nada é verdadeiramente nosso - somos de Deus.

Enfim, vejo o exemplo e as orientações de correção de Jesus dados como uma lição, que devemos pôr em prática perante as injustiças, na luta pela liberdade e pela igualdade, o que não põe em causa a misericórdia e pressupõe uma enorme capacidade de perdoar.

E porque a ironia é uma arma mais forte do que a raiva, convém não esquecer:
"Nunca deixe de perdoar seus inimigos, nada os aborrece tanto."
 Oscar Wilde, http://pt.wikiquote.org/wiki/Inimigo

Terei de não amar o mundo?



“4. Adúlteros, não sabeis que o amor do mundo é abominado por Deus? Todo aquele que quer ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.”
 http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/sao-tiago/4/#ixzz2Mwj4FKbx

Antes de mais, este amor pelo mundo pode traduzir-se na hipervalorização da satisfação das nossas necessidades físicas ou intelectuais, a qual irá alhear-nos de valores como a humildade, a generosidade, a sensatez e tantos outros.

Terei de não amar o mundo?

Mais uma vez, o recurso expressivo aqui usado, apresentando – a dicotomia, o tudo ou o nada, poderá ser apenas uma forma arcaica de estabelecer uma hierarquia de valores. No fundo, pretender-se-á evidenciar a primazia do amor a Deus e demonstrar também que ele não é equivalente ao amor pelo mundo.

O mundo tem todos os seres vivos criados por Deus. Será nossa missão aprender a reconhecer o Seu rosto em cada ser, pois 

40. responderá o Rei: - Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes.”
 http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/sao-mateus/25/#ixzz2MwvW3D8k
Portanto, não devemos maltratar o mundo, se não, estaríamos a ser os inimigos de Deus. E sendo nós parte deste todo, também fará sentido preservarmos a nossa vida. Se assim é, porquê esta censura do amor ao mundo, esta aposta no despojamento integral como se nos devêssemos libertar de alguma coisa errada. Se fomos criados com necessidades vitais, nesta relação de dependência dos alimentos e do calor da terra, se somos fruto da sexualidade, do prazer, se somos corpo, porquê a sua abominação?

Se no seu tempo, Jesus olhou para os textos dos judeus e ousou proclamar o amor aos inimigos em detrimento do seu ódio, talvez nos caiba a missão de, atualmente, sabermos integrar uma nova visão da vida, do ser humano, do corpo, do prazer, não para contestar o que foi revelado, mas para amar mais, muito amplamente, inteiramente, para agradecermos tudo o que Deus nos deu e aceitarmos ser como Ele nos fez: inteligentes, de corpo e alma unidos.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Na lambreta contigo


Enlaço a tua cintura e parto contigo na lambreta. Os teus cabelos morenos brincam com os meus olhos e o meu lenço-raio dança com eles em paralelo. Levantamos as pernas, na descida, para voarmos até ao mar. 

O Vilela não fez nada, perdido na sua eloquência sem emoção. Tu deixaste um raio de cometa, ao passares na rua com a tua lambreta e, noite fora, puxaste-me para a beira da esperança.

A lambreta é travada pela areia morna, onde rolamos até afogarmos os nossos sorrisos. Nasce um novo tempo, que transforma o espaço e faz nascer laranjeiras na praia. Desenhamos palavras quentes e doces com as sementes e as cascas das laranjas e passa-me a dor, que não me largava junto do Vilela.

Ele parte no seu carro rumo à segura rotina, esquecendo o seu barco à vela, onde nos poderíamos desvendar. Não soube dar-me a mão, olhar-me e entrar em mim, pois sempre teve medo de arriscar, de não ser perfeito, de me estragar ao fazer amor e, por isso, nunca o fez comigo.

Fazes parte de mim e eu de ti, meu homem-terra, errante, aventureiro tão jeitoso, que me desviaste da vida demasiado certa do Vilela.

Eu estou doida de alegria, por respirar-te e ser respirada, tocar-te e ser tocada, todo o dia. Dançamos por toda a parte, tanto, tanto, que mais se juntam a nós nas suas lambretas enfeitadas com papoilas e ramos de alecrim. A nossa felicidade transborda devagarinho e faz nascer mais laranjeiras à beira dos caminhos, nas pontes, nos jardins dos vizinhos, no cimo dos montes e sempre que me levas à praia.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Na lambreta com Moretti



Moretti conduz-me na sua lambreta, pelas ruas de Roma, revelando-nos o seu “Caro Diário”. Essa viagem é o que mais lhe agrada fazer. Ele leva-me ao cinema italiano, que nos mostra uma visão pessimista, uma reflexão sobre a acomodação, as derrotas, a degradação social e moral de todos os revolucionários, os quais gritaram palavras horrendas e violentíssimas nas manifestações e agora estão “feios”. O realizador, enquanto espetador, critica, não a luta (pois refere que também o fez, só que com palavras certas), mas a generalização da desilusão, pois é um “esplêndido quarentão”. Nesta perspetiva émica acerca da história de vida, Moretti contrapõe o desencanto, que só vê no passado um ideal, à capacidade de, no presente, se assumir como valor. 

Esta autoconfiança, este estado vivo, leva-o a aventurar-se a entrar em casas desconhecidas, a pretexto de obter informação para filmes de pasteleiros trotskistas. 

E eu, quase a diluir-me, porque Leonard Cohen começa a cantar, voo com o meu olhar pela extraordinária exposição de casas, com a qual, o diretor de fotografia Giuseppe Lanci, nos deleita pela sua forma e cor.

Mas, subitamente, o meu condutor, ao parar junto a um semáforo vermelho, sai da vespa e assume, perante o condutor sisudo do descapotável (mutismo este partilhado por muitos de nós, mas não todos, em tantas circunstâncias sociais), que pertence a uma minoria, pois apesar de acreditar em algumas, não acredita na maioria das pessoas. Esta descrença (que parece continuar o diálogo do filme italiano) poderá ser o questionar o desconcerto, o delírio, patente no 2º capítulo do filme – “as ilhas”, que aparentam ser paradisíacas, mas acabam por se revelar infernais. Ou ainda a crítica aos médicos, por não saberem fazer uma coisa tão simples como ouvir o doente. Percebemos assim que a sua desconfiança relativa às perspetivas mais desencantadas não significa de forma alguma um alheamento sobre os problemas da vida.

E um desses problemas são os limites sentidos por Moretti na concretização de um dos seus sonhos: dançar bem. Diz-nos que, apesar de nunca mais ter sido o mesmo, depois de ter visto “Flashdance” (interessante aqui esta valorização do cinema, após o descrédito anterior, mostrando ser necessário saber ver a qualidade onde ela está) se queda apenas pela contemplação das danças. Na sequência desta revelação, leva-me ao baile onde acaba por cantar “Buscando visa para un sueño” e eu saio da lambreta, envolvo-me no baile e danço. Esta empatia, que Moretti cria connosco, ao colocar-se no lugar de quem deixa os sonhos voar e não os agarra, escancara-nos as nossas desistências, a nossa passividade, a nossa espera de visto, como se o filme da nossa vida ficasse eternamente em stand by e incita-nos a abrir os olhos, a descobrir o que nos faz dançar na vida.