sexta-feira, 8 de março de 2013

Terei de não amar o mundo?



“4. Adúlteros, não sabeis que o amor do mundo é abominado por Deus? Todo aquele que quer ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.”
 http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/sao-tiago/4/#ixzz2Mwj4FKbx

Antes de mais, este amor pelo mundo pode traduzir-se na hipervalorização da satisfação das nossas necessidades físicas ou intelectuais, a qual irá alhear-nos de valores como a humildade, a generosidade, a sensatez e tantos outros.

Terei de não amar o mundo?

Mais uma vez, o recurso expressivo aqui usado, apresentando – a dicotomia, o tudo ou o nada, poderá ser apenas uma forma arcaica de estabelecer uma hierarquia de valores. No fundo, pretender-se-á evidenciar a primazia do amor a Deus e demonstrar também que ele não é equivalente ao amor pelo mundo.

O mundo tem todos os seres vivos criados por Deus. Será nossa missão aprender a reconhecer o Seu rosto em cada ser, pois 

40. responderá o Rei: - Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes.”
 http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/sao-mateus/25/#ixzz2MwvW3D8k
Portanto, não devemos maltratar o mundo, se não, estaríamos a ser os inimigos de Deus. E sendo nós parte deste todo, também fará sentido preservarmos a nossa vida. Se assim é, porquê esta censura do amor ao mundo, esta aposta no despojamento integral como se nos devêssemos libertar de alguma coisa errada. Se fomos criados com necessidades vitais, nesta relação de dependência dos alimentos e do calor da terra, se somos fruto da sexualidade, do prazer, se somos corpo, porquê a sua abominação?

Se no seu tempo, Jesus olhou para os textos dos judeus e ousou proclamar o amor aos inimigos em detrimento do seu ódio, talvez nos caiba a missão de, atualmente, sabermos integrar uma nova visão da vida, do ser humano, do corpo, do prazer, não para contestar o que foi revelado, mas para amar mais, muito amplamente, inteiramente, para agradecermos tudo o que Deus nos deu e aceitarmos ser como Ele nos fez: inteligentes, de corpo e alma unidos.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Na lambreta contigo


Enlaço a tua cintura e parto contigo na lambreta. Os teus cabelos morenos brincam com os meus olhos e o meu lenço-raio dança com eles em paralelo. Levantamos as pernas, na descida, para voarmos até ao mar. 

O Vilela não fez nada, perdido na sua eloquência sem emoção. Tu deixaste um raio de cometa, ao passares na rua com a tua lambreta e, noite fora, puxaste-me para a beira da esperança.

A lambreta é travada pela areia morna, onde rolamos até afogarmos os nossos sorrisos. Nasce um novo tempo, que transforma o espaço e faz nascer laranjeiras na praia. Desenhamos palavras quentes e doces com as sementes e as cascas das laranjas e passa-me a dor, que não me largava junto do Vilela.

Ele parte no seu carro rumo à segura rotina, esquecendo o seu barco à vela, onde nos poderíamos desvendar. Não soube dar-me a mão, olhar-me e entrar em mim, pois sempre teve medo de arriscar, de não ser perfeito, de me estragar ao fazer amor e, por isso, nunca o fez comigo.

Fazes parte de mim e eu de ti, meu homem-terra, errante, aventureiro tão jeitoso, que me desviaste da vida demasiado certa do Vilela.

Eu estou doida de alegria, por respirar-te e ser respirada, tocar-te e ser tocada, todo o dia. Dançamos por toda a parte, tanto, tanto, que mais se juntam a nós nas suas lambretas enfeitadas com papoilas e ramos de alecrim. A nossa felicidade transborda devagarinho e faz nascer mais laranjeiras à beira dos caminhos, nas pontes, nos jardins dos vizinhos, no cimo dos montes e sempre que me levas à praia.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Na lambreta com Moretti



Moretti conduz-me na sua lambreta, pelas ruas de Roma, revelando-nos o seu “Caro Diário”. Essa viagem é o que mais lhe agrada fazer. Ele leva-me ao cinema italiano, que nos mostra uma visão pessimista, uma reflexão sobre a acomodação, as derrotas, a degradação social e moral de todos os revolucionários, os quais gritaram palavras horrendas e violentíssimas nas manifestações e agora estão “feios”. O realizador, enquanto espetador, critica, não a luta (pois refere que também o fez, só que com palavras certas), mas a generalização da desilusão, pois é um “esplêndido quarentão”. Nesta perspetiva émica acerca da história de vida, Moretti contrapõe o desencanto, que só vê no passado um ideal, à capacidade de, no presente, se assumir como valor. 

Esta autoconfiança, este estado vivo, leva-o a aventurar-se a entrar em casas desconhecidas, a pretexto de obter informação para filmes de pasteleiros trotskistas. 

E eu, quase a diluir-me, porque Leonard Cohen começa a cantar, voo com o meu olhar pela extraordinária exposição de casas, com a qual, o diretor de fotografia Giuseppe Lanci, nos deleita pela sua forma e cor.

Mas, subitamente, o meu condutor, ao parar junto a um semáforo vermelho, sai da vespa e assume, perante o condutor sisudo do descapotável (mutismo este partilhado por muitos de nós, mas não todos, em tantas circunstâncias sociais), que pertence a uma minoria, pois apesar de acreditar em algumas, não acredita na maioria das pessoas. Esta descrença (que parece continuar o diálogo do filme italiano) poderá ser o questionar o desconcerto, o delírio, patente no 2º capítulo do filme – “as ilhas”, que aparentam ser paradisíacas, mas acabam por se revelar infernais. Ou ainda a crítica aos médicos, por não saberem fazer uma coisa tão simples como ouvir o doente. Percebemos assim que a sua desconfiança relativa às perspetivas mais desencantadas não significa de forma alguma um alheamento sobre os problemas da vida.

E um desses problemas são os limites sentidos por Moretti na concretização de um dos seus sonhos: dançar bem. Diz-nos que, apesar de nunca mais ter sido o mesmo, depois de ter visto “Flashdance” (interessante aqui esta valorização do cinema, após o descrédito anterior, mostrando ser necessário saber ver a qualidade onde ela está) se queda apenas pela contemplação das danças. Na sequência desta revelação, leva-me ao baile onde acaba por cantar “Buscando visa para un sueño” e eu saio da lambreta, envolvo-me no baile e danço. Esta empatia, que Moretti cria connosco, ao colocar-se no lugar de quem deixa os sonhos voar e não os agarra, escancara-nos as nossas desistências, a nossa passividade, a nossa espera de visto, como se o filme da nossa vida ficasse eternamente em stand by e incita-nos a abrir os olhos, a descobrir o que nos faz dançar na vida.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Biodanza: a dança que dá vida

A dança - Matisse

A comunhão, a partilha de afeto, a alegria vivenciadas na biodanza são interpretadas por alguns como uma farsa, um teatro, uma palhaçada, que só acontece dentro do espaço e do tempo de cada aula, não tendo qualquer repercussão a nível interior e exterior.

Poderemos, à partida, concordar que a intensidade experienciada em cada dança e a profundidade estabelecida nas relações interpessoais não têm paralelo nas rotinas profissionais e sociais dos mesmos intervenientes. Esta diferença remete-nos para o reconhecimento de que somos um todo mais ou menos unificado de diversidades, as quais são exploradas e expostas consoante os contextos ou outros fatores que contribuam para tal. Portanto, o que eu faço num determinado espaço com uma pessoa, não tem de ser exatamente igual ao que faço noutro lugar nem com outras pessoas. Excluo aqui a situação dos trânsfugas, pois dada a sua incoerência moral, são pouco confiáveis, são um múltiplo que não conjuga nada e, por isso, difíceis de respeitar.

Por outro lado, pensar-se a vida como uma súmula de fatos lineares, previstos, certos, sem espaço para a loucura, é esquecer a nossa natureza. De acordo com Alain de Botton,( Bíblia Sagrada: Religião para Ateus, D. Quixote, 2012, pp. 63-66) “nos momentos mais sofisticados, as religiões aceitam a dívida que a bondade, a fé e a doçura têm para com os seus opostos”. Cita a Faculdade de teologia de Paris, que em 1445, defendia a parodia sacra “para que a loucura, que é a nossa segunda natureza e é inerente ao homem, possa esgotar-se livremente uma vez por ano”, de modo a garantir que, fora desse momento, as coisas corriam bem. Aqui, os homens eram comparados a barris de vinho que rebentavam se não fossem abertos. A moral que Botton retira desta festa dos Tolos é que “se queremos comunidades a funcionar bem, não podemos ser ingénuos em relação à nossa natureza”. Há que saber dar lugar ao caos para sabermos ser racionais e fiéis convictos.

Hoje em dia, a ciência põe em evidência esta sabedoria, pois segundo as palavras do meu cardiologista, as “dores de coração” devem-se a ter atingido um estado limite, sendo o meu próprio coração a avisar-me de que não gastei a adrenalina que foi gerada aquando das situações que li como perigosas. Parece que antigamente, os primeiros homens a libertavam naturalmente, através da caça e de outras atividades que realizavam. Mas nós habituámo-nos a acumulá-la, esquecendo a nossa natureza, violando-a, e por isso, é também natural que “rebentemos se não formos abertos”.

Ora, quem conhecer um pouco da Biodanza saberá que se propõe uma exploração desses gestos ancestrais, que, entre outros, nos permitirão libertar essa adrenalina acumulada de forma a sermos mais saudáveis. Poderá parecer uma brincadeira ou um teatro ser uma semente ou uma rã, mas envolve uma componente muito mais séria, pois ajuda a anular o esgotamento causado por tanto stresse, transformando-o numa capacidade de autogestão mais próxima do que é o ser humano.

Portanto, é bom que a biodanza tenha tanta festa! Somos os tolos que aceitam a sua natureza, mas não se deixam estagnar nem esmagar pela agonia do caos. Esta dança comporta dimensões de força e energia que acabarão por transbordar o espaço da aula e trazer uma vitalidade para a vida, que se verificará sobretudo naqueles que se deixarem perder dentro e com a música, para crescerem até onde a sua criatividade os levar. Significará isto, então que a dança da vida entrará nas nossas células e, porque nem tudo é consciente, pode muito bem estar presente em nós, mesmo que não o reconheçamos.

A biodanza é uma experiência artística comparável ou até mesmo superior a ver um quadro ou um filme ou a assistir a um teatro, porque é como sermos os atores, os protagonistas da nossa história, os pintores da nossa vida.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Felicidade



A Biodanza faz-me dançar todo o dia, porque é uma filosofia. Danço quando corto, rasgo, rompo e salto para fora das minhas dores, das correias que me esmagam e crio jardins de mil flores.
É verdade! O ginásio do Centro Escolar tem lá plantado um magnífico jardim. Fiz a sementeira, há umas semanas, numa noite de Biodanza, em que lançámos projetos prá vida. Agora, trago papoilas e girassóis nas camisolas e no olhar e quero andar à chuva para me molhar.
Começo a aceitar os espinhos de uma roseira, que já crescia no jardim da minha vida. Tinha sido pássaro, mas esqueceu-se de voar, tornando-se um réptil frio. Mas agora, as suas pétalas parecem exalar um calor de sangue para eu beber.
Maravilho-me com pequenas coisas. Realmente, tudo se ilumina, quando queremos amar.
Quero dar beijos em sorrisos e deitar-me numa colina, contigo, sem pensar.
A Biodanza dá-me felicidade, vida… porque a trago prá vida!

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Jazz: o movimento da criação




O movimento do pensamento divergente
A raiz da criação
Uma brincadeira de sons desenhados
Pintados com o corpo nu
A voar pelo céu fora

A comunhão da liberdade
Uma confusão de linhas curvas e retas
Transmutadas em fantasias

O vento e o sol rasgados
A noite perfurada pelo brilho do olhar
Numa dança de sonhos doidos

Brincadeira feita na formação de artes 14-07-2020

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A dança dos abraços

Li o Espanta-Pardais da Rosa Colaço e fiquei fascinada com algumas expressões, pela sua ternura, força, verdade…

“(…) farto dos dedos quentes do sol, das mãos frias da chuva, do silêncio (…) de braços abertos a coisa nenhuma, destes braços que nunca abraçaram ninguém (…)” Ed. Vega, p.12
 

A dança dos abraços

Os abraços são um diagrama de Venn feito de flores
São viagens infinitas por estrelas doidas de calor
Os abraços unem o sangue, a pele, o suor
Fazem-nos entrar dentro dos corpos
Absorver e dar vida, força e amor
Levam-nos por espaços entrelaçados
Quebram correntes, distâncias, muros
Deixam-nos a pairar maravilhados
Em danças loucas de êxtase puro

Agradeço com um enorme abraço os abraços dados na biodanza.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Eu


Gosto do olhar diverso
da vida, do amor, da razão 
Cresce em mim uma alegria
uma vontade imensa de ser
de voar
Sentir o corpo no mundo
abrir-me e acolher
ouvir uma canção
Largar a raiva ao vento
Sair do fundo do mar
E rebolar, aquecer
E perder-me num encontro
profundo