Tenho um cavalo calado no meu peito. Quando danço, o cavalo solta-se e leva-me pelos campos num galope vertiginoso. O movimento da sua crina acaricia-me o rosto e faz-me subir para cima dele, pondo-me em pé no seu dorso, de braços abertos. Assim voamos como dois anjos, unidos, seguros, luminosos, pelas nuvens, que se afastam e nos prestam vassalagem. Quando aterramos, o meu peito ofegante liberta pétalas de rosa, pois o sangue não cabe em mim e torna-se imprescindível impregnar a terra. O meu cavalo passeia-me então, deitada sobre ele, exausta, por este mar vermelho, deixa-me escorregar suavemente até cair na areia, à sombra de uma laranjeira, na praia, e segue para a tropa, que por vezes vejo passar nos meus sonhos mais soltos.
Tenho um jardim calado no meu olhar. Quando brinco na terra, semeando e plantando a vida em potência, eu própria sou girassol, que se alegra maravilhado com a germinação, a força e dádiva de Deus presente na natureza. E sou também cuidadora incansável e entusiasta das mais simples flores. Deixo-me inebriar pelo seu cheiro, deixo a sua cor pintar-me o corpo e vestir-me de felicidade, porque há uma festa em cada uma. No meu jardim, todos os elementos se enamoram, nutrindo-se mutuamente numa simbiose que enlouquece saudavelmente. Sempre que me embrenho na jardinagem, saio mais renascida, mais viva, mais florida.
Tenho palavras secretas caladas no meu sorriso. Quando comemos os nossos beijos, entramos um no outro como touro e tigre, agarrando-nos, ora delicada ora ferozmente, e nos bebemos por inteiro, soltam-se em mim as palavras mais doces, as indizíveis, as que saem do mais íntimo e se impregnam na tua pele e invadem o teu coração de um bem-querer infinito. As minhas palavras enleiam-se nos teus fortes braços, que me dão o colo-ninho mais encantador possível e me envolvem numa paz, que jamais havia sentido. Este encontro, há tanto, tanto desejado, propicia frases de entrega, que só a lógica dos sentidos e das emoções mais puras permite vislumbrar. Por isso, te digo, meu amor: “Contigo, pela primeira vez e mais do que nunca, sinto-me única, encontrada, querida, encantada, linda, respeitada, mulher e mãe amada, feliz, muito, muito feliz.”
A dor do desamor é um vampiro,
que nos extrai paulatinamente a alegria e a confiança até à última gota, transformando-nos
em mortos-vivos.
Mas a vida é um milagre,
feito de poeira de estrelas, é uma força maior e ainda mais arrebatadora, se
nos deixarmos envolver pela sua beleza, pela graça, pelo fascínio de
simplesmente ser.
Ficar
amargurada, olhando para quadros negros, pintados com o desencontro, as falhas
de comunicação, as ausências, que me perfuraram e retiraram o sangue, seria
deixar-me dominar pela tormenta.
Prefiro,
antes, guardar no meu coração o ter conseguido voar, maravilhosamente, sobre o
mar da esperança, tendo, no entanto, consciência de que já aterrei e de não querer
repetir esse voo.
O
fascínio, o deslumbramento que se liberta na relação amorosa eleva-nos ao
infinito, enlaça o tempo e o espaço, fazendo transbordar uma vida nova.
Torna-se
difícil, quase incompreensível conceber que, depois de tanto encanto, de tanto
sentimento, seja possível levantar para novo voo, de tão poderosas terem sidos
as vivências. Mas basta ouvir o silêncio, a luz das estrelas, a voz da terra
molhada para descobrir que ainda muito há para sentir, ainda muito há para amar,
ainda muito há para partilhar.
E porque se geraram em mim, para além das dores, palavras-olhares tão vivos,
deixo aqui inscritas como tesouros algumas, não para divulgar o que é íntimo, mas porque esta é a minha única maneira de amar, toda, por inteiro, sem reservas...
E se eu de novo alguma repetir, não
há problema nenhum, porque do mesmo modo que uma mãe diz “amo-te” a todos os
seus filhos por muito diferentes que eles sejam, também eu amarei de novo numa
entrega confiante. É que acontecem maravilhas quando amamos e somos amados.
“As
nossas mãos dançam desejos de luz e vida.”
“Sente
em cada gota de chuva beijos meus.”
“Um
beijo com sabor a saudades, um abraço pintado de desejos…”
“Sabe
a brincadeira ficar a pensar em coisas deliciosas para te dizer.”
“És
um poema feito de espuma, perfumado de flor de laranjeira, que liberta calor,
alegria e maravilha o meu ser.”
“Quero
a serenidade de te aguardar ao entardecer para nos partilharmos.”
“Qualquer
lamento meu é insignificante perante a certeza inexplicável de tanto te querer.”
Rafael Santandreu mostra-nos de forma clara, nesta entrevista, a sua perspetiva sobre a felicidade.
Começa por revelar que a chave da felicidade é abandonarmos os queixumes para passarmos a adotar uma atitude mais construtiva, procurando aproveitar as oportunidades. E são inúmeras as situações do dia a dia em que habitualmente nos lamentamos.
Considera que assumir a frustração é uma coisa má. Há que saber olhar para os pequenos incómodos com outro olhar. Importa desconstruir o já instalado diálogo interno terribilizador, tendo como recurso precioso a argumentação sobre si próprio.
Está subjacente a esta nova atitude a recusa do endeusamento da comodidade, pois um pouco dela é saudável, mas muita provoca problemas mentais, porque tudo se torna penoso, doloroso, triste.
Propõe, neste quadro, que se procure ter uma mente de preferências, em vez de uma de exigências. Quem tem a primeira diz. “Sou um desgraçado, a minha vida é uma miséria…”e quem tem a segunda diz: “gostaria de ser, vou tentar…”
É que a força do desfrute é mais forte que a força da obrigação, pois esta é muito desgastante e pouco construtiva. Para sabermos desfrutar, devemos usar os “óculos” da felicidade, durante uma hora a hora e meia por dia, no sentido de nos habituarmos a não exigir, a não nos queixarmos, a valorizar o que temos. A depressão produz-se por desamor, por não usarmos estes “óculos.”
A sociedade consumista introduziu uma velocidade exagerada na vida quotidiana, gerando situações de estresse permanente. Há que fazer um esforço consciente para reduzir esta velocidade, questionando as exigências que a própria nos impõe, para além das nossas.
Rafael considera que ter comida e bebida são condições suficientes para deixar de fazer dramatismos, mas não defende o conformismo.
Este psicólogo põe também em causa o conceito de que a nossa felicidade esteja na ajuda aos outros, pois defende que esse objetivo deve estar na cabeça de cada um e é da sua responsabilidade. Afirma que a felicidade é da responsabilidade de cada um, porque é individualmente que se há de aprender a resolver os problemas e a felicidade não vem dos outros.
Preconiza que o importante é sabermos cuidar-nos, praticando desporto, estudando, tendo amigos, para estarmos bem para partilharmos a nossa alegria com os outros.
Mas, eu questiono este último ponto, pois vejo a noção de felicidade muito colada ao individualismo.
Uma mãe é mais feliz se passar fome for necessário para nutrir o seu filho, eu sou mais feliz se der um rim a um amigo para evitar a sua morte.
Há que considerar uma perspetiva mais émica, mais cristã, nesta visão de Rafael, alterando a graduação dos “óculos” da felicidade. É necessário acrescentar o prazer de não nos centrarmos na nossa concha de felicidade individual, pois nós somos seres em relação, múltiplos, nascidos e construídos na relação com os outros.
A sede dos meus amigos é a minha sede, o seu medo é meu, a sua dor é igualmente minha. E é no sentido em que eu contribuo para que este ser coletivo se anime que eu sou feliz.
Um manipulador sabe
arvorar-se em vítima. Vítima da falta de sorte, dos cônjuges anteriores, da
doença, de experiências negativas ocorridas na infância…
E este estado de vítima é
usado para justificar todos os seus medos, a sua falta de entrega a sua
ausência de compromisso. Não admite ser questionado sobre nada, porque tudo o
perturba e lhe causa mal-estar, tudo se transforma em crítica destrutiva. Raramente,
procura verificar a exatidão do que lhe é dito, ficando preso na sua própria
interpretação. O seu egocentrismo torna-o incapaz de se pôr no lugar dos outros
e de os compreender em profundidade.
Relato de uma vítima (adaptado):
[Surgiam crises impressionantes
quando eu o punha em questão. Então receando as suas reações, resolvia os
problemas discreta e calmamente. Se eu lhe falasse de uma simples atitude, de
um desejo, se lhe propusesse alguma alteração da rotina, as suas reações eram
sempre as mesmas: ameaças de suicídio, auto-desvalorização, insónias… Seguia-se
sempre um período de silêncio em que qualquer diálogo era impossível:
visivelmente ele sofria!
Eu estava consciente do seu
egocentrismo e apercebia-me da discrepância entre o seu discurso e as suas
atitudes: citava frases e textos extremamente adequados e lúcidos, mas não
fazia a mínima prova dessa psicologia aquando a vida quotidiana lho exigia. O desfasamento
entre o seu discurso e os seus atos deixava-me verdadeiramente baralhada, perplexa.
Eu sofria, aquele silêncio
parecia-me castigo, censura, um aviso para que da próxima vez não o
perturbasse. Sentia-me culpada todas as vezes que fazia uma observação e cada
vez mais a evitava.]
Mas porque o manipulador se
apresenta simpático, altruísta, sedutor, culto, tímido, possibilita que se
passem bons momentos a seu lado. Torna-se desejável. Torna-se também, por isso
mesmo, muito difícil reconhecê-lo como manipulador, especialmente, porque ele
próprio não se reconhece como tal. Aliás, necessita de assegurar uma imagem
positiva de si próprio à qual a sua manipulação é alheia.
Gera-se um ambiente de
violência psicológica, que é exercida sem testemunhas.
Resta à vítima aprender a
identificar e reconhecer as caraterísticas do manipulador e apostar no melhor
remédio para evitar relações tóxicas: o amor por si própria.
Adaptado de: Nazare-Aga,
Isabelle, (2001) “Os Manipuladores do Amor”, Pergaminho, Cascais
O meu gosto pela da música e a sua relação com a Orquestra Ligeira da Vestiaria
Dos cinco sentidos que nós temos, a audição é o que primeiro nasce, ainda no ventre materno. Por saber disto, durante os nove meses de gravidez dei muitos banhos musicais à minha filha e, por isso, ela ficou destinada a amar a música.
E onde é que eu bebi este amor pela música? Decerto nas canções de embalar dos meus pais, nos ritmos africanos que experienciei ao vivo em Angola, no que passava na rádio e na TV…
Mas uma das experiências mais enriquecedoras para mim foi a do ensaio musical, que acontecia aqui, nesta casa, uma vez por semana, à noite, na companhia de pessoas muito, muito boas!...
Trata-se de pessoas boas, porque tiveram ideias pioneiras em termos musicais na nossa região e por tudo aquilo que criaram:
Criaram uma escola de música, na qual se valorizava a aprendizagem dos conteúdos musicais e do instrumento de uma forma sistemática e coerente, como algo fundamental para o desenvolvimento de crianças e adolescentes;
Criaram-nos como pais, numa dedicação estrema Alberto Campos e Marcos Assunção, que apostaram em nós para a formação da referida escola. Cuidou de nós, também José Guimarães, o primeiro professor a acreditar neste projeto;
Criaram-nos a possibilidade de ocuparmos bem o tempo, coisa que parece simples, mas que todos sabem que sempre foi e é difícil…;
Criaram-nos a possibilidade de aprendermos gratuitamente uma das artes mais ancestrais e harmoniosas da humanidade;
Criaram-nos a possibilidade de nos prepararmos para exercer uma profissão no futuro, musical ou não. Pois o saber trabalhar em conjunto, o saber que o todo depende da qualidade de trabalho de cada um, são fatores essenciais para um bom desempenho;
Criaram-nos a possibilidade de nos envolvermos, pois geraram-se genuínas relações de amizade, que apesar de não serem alimentadas diariamente, ficaram para sempre nos nossos corações (e esta nossa reunião é bem prova disso!).
E foi então, que, um pouco inspirados pela orquestra de Ponte de Sôr, que nos brindou com as suas maravilhosas atuações, nos lançámos, há 30 anos atrás, na grande aventura de iniciar a primeira orquestra ligeira da região.
Ousámos sair da rotina e roubar ao nosso tempo livre (e foi sempre ao nosso tempo livre, nunca foi à escola, pois todos sabemos que a música melhora as notas a matemática e não só…) mais um tempo para experimentarmos novas sonoridades um pouco mais em consonância com a fase da adolescência que atravessávamos.
E esta foi uma experiência que nos agarrou definitivamente à música, mesmo que nem todos tenhamos seguido a carreira musical profissionalmente, porque introduziu uma dimensão de prazer, que é essencial à prática de qualquer atividade para que ela seja verdadeiramente integrada em cada um de nós como benéfica.
Fomos pois beneficiados com o privilégio de tocamos em conjunto, de sermos tocados pela dedicação do maestro Marcos Assunção e de sermos nós próprios a tocar a sensibilidade dos mais novos que nos ouviram e desejaram também partilhar o que esta arte tem de melhor: envolvimento.
Recordo com especial carinho momentos maravilhosos como a nossa atuação na FIL, a qual nos deixou muito orgulhosos, o que faz muito bem ao coração.
E, apesar da música ser uma linguagem universal, digo obrigada, e não thank you, merci ou gracias, porque, de acordo com o “Tratado da Gratidão” de S. Tomás de Aquino”, só o “obrigada” contém a dimensão de vínculo, de comprometimento de continuar esta dádiva perante quantos partilharam comigo tão nobre arte.
Por isso, apesar de atualmente não tocar em nenhuma orquestra, todos os meus alunos levam também um bom banho de música para realizarem os seus trabalhos com satisfação e, muitas vezes, já são eles próprios que pedem para eu colocar aquela música boa (muitas vezes é Bach) para ficarem bem concentrados.